O azulejo frio não é só piso. É lembrança.
Sua mão treme. Não exatamente de frio. Talvez de exaustão. Talvez daquele tipo de lucidez que chega tarde e mesmo assim ainda corta.
O cheiro de mofo é o mesmo de antes. Mas hoje ele parece mais presente. Como se o ambiente inteiro estivesse dizendo, sem piedade: nada mudou. Você ainda está no mesmo chão. Na mesma espera. No mesmo esforço de parecer bem para não preocupar ninguém.
O espelho não exagera. Apenas devolve. Um rosto cansado. Um olhar que já tentou pedir socorro sem palavras. Uma mulher que foi cedendo tanto para caber que agora mal consegue se encontrar inteira.
E então vem a frase. Aquela frase pequena, cruel, quase banal: “Fala baixo. Você incomoda.”
Mas talvez o que mais incomode não seja ouvir isso. Talvez seja perceber o quanto, por muito tempo, você acreditou. Acreditou que amar era diminuir o volume de si. Que presença era favor. Que ser escolhida exigia primeiro se desmontar.
E há um momento em que a dor para de pedir alívio e começa a pedir verdade.
Talvez seja esse o momento em que certas leituras deixam de parecer exageradas… e passam a parecer necessárias.